Um exército debilitado, mas um sargento fiel a sua nação. Sua captura, uma prisão subterrânea, a fuga e uma peregrinação por quatro dias sem qualquer suprimento. Enfim, a saída de seu país, terminada a guerra civil que acabou com a vitória do grupo golpista, adversário do Estado e, portanto, deste sargento. Anos sem perspectiva… E então, sua chegada a São Paulo, em busca da sobrevivência e da liberdade para a reedificação de sua vida. Uma história real de um refugiado que ainda não está terminada, mas escondida sob os véus do anonimato da caótica metrópole.
Atualmente, a capital paulista abriga cerca de 1700 pessoas que já adquiriram a legalização de seu status de refugiado ou esperam a conclusão de seus processos, quase a metade do número de refugiados e solicitantes em todo o país. Através de alguns organismos institucionais e civis, estes estrangeiros contam com uma série de assistências que começa com o apoio jurídico para a solicitação da condição de refugiado, o que lhes possibilita vários benefícios, desde auxílios para que sanem suas necessidades básicas de moradia, alimentação, higiene etc. até subsídios culturais e profissionalizantes que facilitam ainda mais suas possibilidades de inclusão social no novo país.
O sargento Mohamed é mais um entre muitos deles que trazem de seus países histórias dramáticas e lembranças indeléveis de uma época que os deixaram, quase sempre, entre a vida e a morte. São lembranças que tornam São Paulo – uma das cidades mais violentas do Brasil – um lugar até receptivo e promissor para que eles recomecem suas vidas longe de um ambiente de tamanho risco e temor nos quais viveram.
O longo caminho de um guerreiro
O homem arquejava fortemente. Havia caminhado por cerca de 300 quilômetros durante quatro dias de fuga. No caminho, três de seus companheiros prisioneiros de uma asfixiante prisão subterrânea não agüentaram de cansaço, fome e sede, e estiraram seus corpos sobre a terra, incertos de seus destinos. Ele ainda tentou convencê-los da importância de continuarem juntos, naquela perigosa peregrinação pela sobrevivência. Afinal, as tropas do exército vencedor, lideradas pelo Brigadeiro Anssumane Mané, o chefe do Estado Maior de Guiné Bissau, eram incontestavelmente mais numerosas e preparadas para a guerra civil iniciada em junho de 1998 e que dividiu o país por cerca de 11 meses. Por isso, seguramente, uma fuga solitária não seria a alternativa mais sensata para aquele momento.
Mohamed Lamine Sambu era um jovem sargento, de 21 anos, muito perspicaz e a inteligência vinha lhe garantindo a vida por aqueles meses de intensas batalhas, nas quais lutava defendendo um exército debilitado desde o início do combate. Ao resolver iniciar o assalto ao governo do presidente eleito João Bernardo Vieira, popularmente conhecido como Nino, Anssumane contou com o apoio da maioria das forças militares do país, incluindo os oficiais de alta patente, mais experientes, restando a Nino a fidelidade de uma minoria, além de tudo, composta majoritariamente por jovens soldados.
E era o sargento Mohamed que, ofegante, insistira em não deixar de caminhar e, agora, ao avistar uma pequena vila, tinha a oportunidade de desfrutar de algum descanso, na sombra de uma árvore, sem deixar sequer por um segundo de desconfiar daquele momento de mínimo alívio que gozava. A escola militar já havia lhe ensinado uma regra básica, num momento de tensão política e militar como aquele: sempre desconfiar, de qualquer pessoa que fosse. Qualquer delação poderia custar-lhe a vida. E, portanto, apesar da sede, que era o que mais castigava, o jovem ficou alguns minutos calado sob a árvore, observando o local.
Seus olhos perceberam a algumas dezenas de metros a presença de uma figura insólita. Era um homem, que cavava a terra, à procura de algo. Pela aparência e vestes, o jovem deduziu ser um curandeiro e que deveria estar extraindo da terra algumas raízes, provavelmente necessárias para fazer suas soluções de cura. O que ele mais queria naquele momento, parecia ter encontrado: um local aparentemente isolado para se reabilitar. Mas, de qualquer maneira, sua consciência estratégica e cauta ainda o perturbava, impendido de recorrer ao curandeiro, para qualquer ajuda que fosse. Sua cabeça turbilhava de pensamentos e um raciocínio mais seguro veio num átimo. Mohamed afastou-se um pouco do homem, escondendo-se atrás de uma outra árvore. Começou, então, a forçar uma tosse, um sintoma simples, mas que certamente chamaria atenção de um homem cujo ofício é o de se preocupar com a cura dos outros. A resposta foi instantânea:
“Quem está aí?”, perguntou o curandeiro.
Mohamed continuou a tossir, intermitentemente, transmitindo fraqueza a ponto, quem sabe, de não conseguir sequer ouvir a pergunta. Tudo calculado. O curandeiro insistiu:
“Quem está aí? O que se passa? Precisa de alguma ajuda?”
O homem pôs-se a caminhar, procurando o suposto adoentado. O jovem Mohamed, então, manifestou-se, fez-se ver, numa atitude sabidamente por ele ser ousada, mas justificada pela sua necessidade de sobrevivência.
“Preciso de água, muita água”, pediu o jovem militar, com as vestes tão sujas e depauperadas que sequer aludiam à discreta farda que vestia. O curandeiro balançou a cabeça, negando-se a atender a súplica. Mas, nisso não havia nenhuma resistência em ajudá-lo. Pelo contrário:
“Não, não pode. Há quantos dias não come ou bebe alguma coisa?”
“Caminho há quatro dias solitariamente, sem qualquer suprimento”, disse Mohamed, já intuindo certa confiança naquele sujeito.
“Certo, espere aqui. Trarei um pouco de água, mas beba aos poucos e o mínimo que puder. Nesta situação, beber demais poderá agravar sua situação.”
Daquilo Mohamed não sabia, mas acreditou no conselho que recebera. Bebeu pouco, apesar da vontade quase incontrolável de sanar sua sede com litros e mais litros de água.
“Vou buscar algo para você comer”, disse o curandeiro.
Mohamed aquietou-se, mas durante a demora do curandeiro, a cautela excessiva o perturbou novamente. Aquele tempo poderia ser o suficiente para que o homem, que já agora lhe parecia astuto demais, o delatasse, caso deduzisse que ele estivesse fugindo das tropas de Anssumane Mane. Afinal, a notícia de que a guerra terminara, com sua vitória garantida e presumida, poderia já ter chegado aos mais reclusos cantos de Guiné-Bissau.
Mohamed se escondeu novamente, não perdendo de vista o caminho percorrido pelo curandeiro. Passados alguns minutos, avistou-o, com alguma comida à mão e, não resistindo, caminhou em sua direção, já com a intenção de lhe contar sua história e fugir o mais rápido do país. Comeu vorazmente.
“De onde você vem? Por que está neste estado?”
“Vou lhe contar o que se passou comigo.” A serenidade de seu interlocutor lhe permitiu que narrasse sua história, sem qualquer interrupção. “Lutei por Nino. Entrei no exército aos 18 anos, e lá na escola militar aprendi tudo o que sei. Aprendi a defender, sobretudo, a leis de meu país, a Constituição. E, iniciada a guerra, não hesitei em ficar ao lado do presidente democraticamente eleito pelo povo, pois é por isso que zelo. Mesmo sendo minoria os militares que o apóiam, fui convicto nesta minha decisão. Acabei capturado, mas consegui me libertar ao reconhecer um antigo colega de exército, já como oficial, cuidando da prisão subterrânea onde fiquei cativo. Era pouco espaço para muita gente. Tive a sorte de reservar meu lugar junto a um canto mais arejado, por onde não me faltou oxigênio, enquanto vários outros, mais amontoados, vi morrer por asfixia. Meu colega me abriu a cela e consegui fugir com mais três que souberam aproveitar a ocasião.” Mohamed falava sem parar e a perspicácia e a coerência com que narrava sua trajetória envolvia fortemente o silencioso curandeiro.“Desde o início da fuga, fui o único a defender que caminhássemos juntos, até chegarmos a algum lugar seguro. Mas os outros três se renderam ao cansaço no terceiro dia e se estiraram sobre a terra. Então, segui sozinho até chegar aqui. Preciso fugir do país, pois as tropas de Anssumane já tomam conta de tudo.” Enfim, terminou de falar. E ouviu o conselho do curandeiro:
“Vou conseguir um carro de viagem que te leve ao Senegal. Lá, estará mais seguro.”
Os carros que faziam a viagem até a fronteira entre Guiné-Bissau e seu vizinho ao Norte, o Senegal, em geral, esperavam a lotação máxima para partir. O hábito naquele pobre país era este. Quem quisesse viajar, tinha de esperar que outros seis interessados aparecessem e, aí assim, o carro seguia. Mas o tempo, naquele momento de risco para Mohamed, poderia significar sua própria vida, por isso, a nova idéia de seu agora confiável parceiro:
“Vou pagar a viagem completa para que não seja preciso esperar as outras pessoas. Assim, rapidamente você estará longe daqui”.
“Não!”, discordou o jovem militar. “Quando chegarmos à barreira militar próxima à fronteira, certamente, desconfiarão ao ver um carro com apenas um passageiro. É melhor seguir o protocolo e irei com outros seis ocupantes.” O curandeiro rendeu-se ao inteligente raciocínio de Mohamed, assentindo sua opinião. O diálogo acabou ali. Era hora de agir.
Pela sobrevivência, rumo ao Norte, ao Senegal
Os dois se dirigiram ao local, não muito longe dali, de onde costumavam sair os veículos em direção à fronteira. A tensão da operação de fuga armada pela dupla era visível. A guerra, que eclodira no dia 7 de Junho de 1998, não havia durado mais do que exatos onze meses para que Anssumane tomasse o palácio do governo em 7 de maio de 1999, obrigando Nino a pedir asilo político em Portugal. E o que restava, naquele momento da fuga, era a certeza da derrota da causa defendida por Mohamed e o medo de cair novamente nas mãos do exército do novo governo golpista. Este risco era alto, pois as fronteiras estavam intensamente militarizadas com grande parte da população civil a favor dos vencedores. Em seu próprio país, o jovem militar era, definitivamente, um intruso e, o que não sabia, é que seria também um intruso no próprio veículo pelo qual pretendia fugir em direção à liberdade.
Finalmente, ele entrou no carro, acompanhado de outros seis civis. O curandeiro se foi. As pessoas que ocupavam o automóvel não sabiam que estavam envolvidas na pretensão de fuga de um militar que lutara do lado do presidente Nino. Mas, talvez pela sua aparência mal-tratada e o clima de apreensão que contaminava a população em geral pelo recente fim da guerra deu a certeza a um dos ocupantes civis que algo era estranho na presença de Mohamed naquela viagem.
“Ao chegar perto da base militar, que ficava a uns 5 quilômetros da fronteira, um dos passageiros fez um sinal para um oficial”, lembra Mohamed. Em poucos segundos, percebeu-se certa mobilização entre os militares. “Um tanque de guerra começou a nos perseguir”, conta. O motorista amedrontou-se e compreendeu rapidamente o motivo daquilo, quando, ao esboçar parar o carro para qualquer tipo de fiscalização ou esclarecimento, ouviu Mohamed obrigá-lo a seguir em frente e acelerar o automóvel em direção aos poucos quilômetros que separavam Guiné-Bissau do Senegal.
O motorista hesitou. Num movimento brusco, Mohamed jogou-o para o lado e assumiu a direção do veículo. Em alta velocidade, concentrou-se no seu norte, no seu único objetivo naquele instante: a liberdade. Acelerava e avistava o horizonte fronteiriço entre as duas nações. O tanque o perseguia, e aqueles poucos quilômetros marcaram a lembrança do fugitivo como um ato heróico. Enfim, ele ultrapassou a fronteira. Sua sobrevivência, naquele momento, estava assegurada.
Livre, mas nem tanto
Mohamed estava livre do risco de morrer no seu próprio país ou acabar novamente capturado como preso de guerra. Mas, por outro lado, já se via como um desterrado, longe da pátria onde se criara e vivera toda a vida. Também já imaginava a possibilidade de nunca mais rever sua família que, ao início da guerra, fugiu para uma região rural e mais segura de Guiné-Bissau, preservando-se viva. Era uma família pobre. O pai, enfermeiro, sustentava a casa. A mãe era dona-de-casa e dividia o marido com outras três esposas. “Eu tinha uma irmã por parte de pai. Mas nunca gostei muito da idéia de ele ter outras mulheres, mesmo isso sendo parte da cultura de nosso país”, diz ele, mantendo o mesmo olhar convicto de quando justificou o porquê de defender um exército claramente desfavorecido durante a guerra.
Em Guiné-Bissau, aproximadamente 98% da população seguem a religião muçulmana, assim como a família de Mohamed. Aqueles que optam pelo cristianismo são, muitas vezes, agressivamente segregados, ficando sempre expostos a violências de todos os tipos, inclusive de suas próprias famílias, caso divirjam da crença islâmica delas. Mas, ao menos nesse ponto, o convicto Mohamed nunca manifestou nenhuma resistência.
Ao chegar em território senegalês, logo se dirigiu à base militar mais próxima da fronteira, de onde foi levado ao quartel de Dakar, capital do país. Não houve grandes problemas. No Senegal, ele viveu os primeiros meses sem qualquer ameaça. O governo recém-chegado ao poder em Guiné Bissau, sabendo que muitos de seus adversários militares e políticos haviam fugido para os países vizinhos, manifestou-se a favor do retorno pacífico deste contingente. Mohamed não acreditou em nenhum momento nisso. E ele tinha razão. Era uma falácia estratégica. “Um guineense também fugitivo que encontrei no Senegal acreditou no que o governo de Anssumane declarou. Depois de algum tempo, me disseram que ele foi fuzilado ao chegar ao país.”
Porém, com o tempo, a sua permanência no Senegal provou não ser de grande segurança. Durante o quase um ano que durara o conflito militar guineense, as relações diplomáticas com os países vizinhos, como o Senegal, foram interrompidas. Com a consolidação do novo poder, no entanto, começaram a ser reatadas. Este estreitamento acarretou na retomada de missões políticas e militares de Guiné-Bissau ao país. E, a cada uma dessas visitas, o pânico voltava a incomodar a relativa paz na qual o sargento vivia. “Cada vez que sabia da presença de alguma missão desse tipo, percebia que não estava seguro nem ali”. Resolveu, então, fugir novamente para o Cabo Verde, nação formada por um conjunto de ilhas no Oceano Atlântico, próximas à costa africana, e também colonizada pelos portugueses, como Guiné-Bissau.
Lá, Mohamed viveu uma vida simples, sustentando-se por meio de trabalhos esporádicos, mas, ao menos, sem o temor permanente de ser capturado outra vez. Ele viveu por cerca de cinco anos sem grandes perspectivas, longe de sua família, do ambiente militar que o formou e socialmente restrito a pequenos grupos de guineenses fugitivos como ele. Cansou-se quando soube que o Estado Maior do Senegal visitaria o Cabo Verde. Com a aproximação entre aquele país e a Guiné-Bissau já consolidada, certamente aquilo não deixaria de ser um risco para um fugitivo como Mohamed. “Nessa hora, resolvi ir embora da África, queria atravessar o Oceano, para bem longe dali”.
Entre seus compatriotas, falava-se muito no Brasil e nos Estados Unidos como opções para recomeçar a vida. “Mas os Estados Unidos, eu pensei, se envolvem em tudo que é guerra no mundo e, ultimamente, têm sido alvos do terror. Resolvi vir para o Brasil, principalmente por ter informações de ser um lugar livre, sem guerras como as da África e ter um ambiente relativamente pacífico.” O idioma português também não deixava de ser um estímulo para a sua escolha.
Forlateza-CE, Brasil, 6 de maio de 2005
Mohamed Lamine Sambu já não era mais o jovem militar de 21 anos. Agora, aos 28 anos, chegava à capital cearense, decidido a refazer a sua vida de vez. Chegou de avião, com a passagem paga com o pouquíssimo dinheiro que tinha. “Ao descer no Brasil eu tinha o equivalente a 200 reais. ” Já no dia 25 de maio, ele chegava a São Paulo, informado de que na cidade teria que cumprir as exigências burocráticas para a legalização de seu status de refugiado na Caritas Arquidiocesana de São Paulo, entidade civil oficial de assistência aos refugiados, com sedes em São Paulo e Rio de Janeiro.
“Fui muito bem recebido ali”, diz ele. O processo legal de convencimento de que sua situação era realmente de refúgio tramitou de maneira tranqüila e em apenas um mês ele recebeu um protocolo de legalização de sua permanência ao ser entrevistado por uma equipe do Comitê Nacional para Refugiados, órgão do governo federal, vinda de Brasília. Sua situação na África era claramente de risco de morte e de perseguição.
Após chegar à capital paulista, ele foi encaminhado à Casa do Migrante, um albergue muito bem cuidado pela Arquidiocese de São Paulo em parceria com a Prefeitura, onde mora até hoje. Nesse tempo, a Caritas também vem lhe garantindo um kit-higiene mensal, com giletes, escovas de dente, sabonete, perfume entre outros itens de necessidade básica.
Com dificuldade para arranjar emprego, conseguiu também, a partir do dia 12 de setembro, uma doação mensal da entidade no valor de 150 reais, que tem utilizado para se locomover à procura de trabalho e para complementar sua alimentação. A assistência, em seu caso específico, vale por três meses.
Mohamed é um homem inteligente e eloqüente. Sua educação militar lhe deu uma postura prática e ativa diante das dificuldades que não pararam de aparecer em sua vida. Hoje, já tem a consciência da necessidade de se capacitar profissionalmente para, enfim, conseguir uma fonte de renda estável, que o desprenda do bem-vindo e indispensável assistencialismo que lhe garante uma vida minimamente digna, num país que conhece há apenas cinco meses.
“Já solicitei vaga para um curso técnico de modelagem no Senai” – entidade com a qual a Caritas tem convênio. “Só estou esperando surgir uma vaga. Não vejo a hora de começar a produzir algo de bom e me aperfeiçoar em alguma área”. Por enquanto, ele freqüenta o Sesc do Carmo algumas vezes por semana para freqüentar a biblioteca e usufruir o desconto de 60% no almoço, obtido através do “cartão verde”, o cartão-alimentação concedido pela instituição para ajudar os refugiados. “As atividades que oferecem no Sesc são muitas, mas só gosto de ir lá para ler. Meu objetivo maior mesmo é conseguir um emprego”.
Nesse pouco tempo de Brasil, ele se diz impressionado com a beleza das praias do Nordeste, que conheceu durante o período em que desceu de Fortaleza para São Paulo, em viagens de ônibus, conforme ia conseguindo algum dinheiro através de trabalhos e serviços rápidos. Mas, infelizmente, o tempo restrito já lhe foi também suficiente para que, por alguns dias, ele desconfiasse da segurança que vinha tendo no país. “Percebi desde o início o preconceito contra os negros no Brasil”. Ao ser encaminhado a uma agência bancária para tirar seu CPF, Mohamed viu-se numa situação, que nem a guerra civil guineense o colocou. “Uma funcionária do banco me indicou uma porta para que eu entrasse. Por engano, eu entrei no local errado e em poucos segundos senti uma arma encostada na minha cabeça. Era o segurança do banco. Isto já está marcado na minha memória, mas de qualquer maneira, sinto-me bem mais seguro no Brasil”, conclui Mohamed.
Este texto é um capítulo do livro-reportagem Fuga e Abrigo, histórias de refugiados em São Paulo, obra escrita em parceria com os alunos Murilo Bonadio e Denis Eduardo Serio, como Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo – publicado na Revista Diálogos & Debates.
“Sr. Secretário, mais problema”. A frase do Batista logo me chamou atenção naquele dia em que os papéis se avolumavam sobre a mesa sem qualquer pretensão de despacho. O Dr. Magalhães, que tinha acabado de desligar o celular com um sorriso debochado, deu um suspiro profundo e foi logo querendo saber: “Ah não, o que foi agora?”. “É o Luizinho, o caboclo tá virando Deus lá em Canapi”.
Haviam dito em algum lugar dali que o estado do cativo era deplorável. O oficial Nereu logo se dirigiu ao cárcere e constatou que era mesmo caso de se fazer algo. Abraçado às pernas, Miro tinha o corpo recostado na lateral do catre e os pés chatos colados no cimento frio. Ao lado, uma pequena bacia desbotada com restos de arroz e sobras da carne enervada de péssima qualidade. Com um saco grande na mão, o oficial bateu a chave na grade, como um aviso, e despejou uma porção generosa da mesma ração insossa que o coitado comia há dias. Retirou-se.
Diante das águas translúcidas, olhou o reflexo de seu semblante inquieto. A paisagem multicolorida e vicejante, como uma moldura infinita ao redor de seu corpo, era belíssima para quem o via ali, sozinho e reflexivo.
Foram direto aos bilhetes, compraram e se sentaram. Nas poltronas do meio: “nem muito ao céu, nem muito à terra”. Meio longe da penumbra onde dois ou três casais se acomodavam.
Raízes do Brasil, do célebre historiador brasileiro Sérgio Buarque de Holanda, é sempre lembrada quando se fala do nascimento da moderna historiografia brasileira. Costumeiramente elencado ao lado de Gilberto Freyre e Caio Prado Jr., o autor de Raízes ganha destaque especial por trazer uma abordagem que se faz saborosa e fluente, sem deixar de cumprir o rigor histórico das grandes obras.