Fuga e Abrigo: a saga de Mohamed

Postado em Geral, Matérias em 6 junho, 2005 por guilhermesardas

mohamed2Um exército debilitado, mas um sargento fiel a sua nação. Sua captura, uma prisão subterrânea, a fuga e uma peregrinação por quatro dias sem qualquer suprimento. Enfim, a saída de seu país, terminada a guerra civil que acabou com a vitória do grupo golpista, adversário do Estado e, portanto, deste sargento. Anos sem perspectiva… E então, sua chegada a São Paulo, em busca da sobrevivência e da liberdade para a reedificação de sua vida. Uma história real de um refugiado que ainda não está terminada, mas escondida sob os véus do anonimato da caótica metrópole.

Atualmente, a capital paulista abriga cerca de 1700 pessoas que já adquiriram a legalização de seu status de refugiado ou esperam a conclusão de seus processos, quase a metade do número de refugiados e solicitantes em todo o país. Através de alguns organismos institucionais e civis, estes estrangeiros contam com uma série de assistências que começa com o apoio jurídico para a solicitação da condição de refugiado, o que lhes possibilita vários benefícios, desde auxílios para que sanem suas necessidades básicas de moradia, alimentação, higiene etc. até subsídios culturais e profissionalizantes que facilitam ainda mais suas possibilidades de inclusão social no novo país.

O sargento Mohamed é mais um entre muitos deles que trazem de seus países histórias dramáticas e lembranças indeléveis de uma época que os deixaram, quase sempre, entre a vida e a morte. São lembranças que tornam São Paulo – uma das cidades mais violentas do Brasil – um lugar até receptivo e promissor para que eles recomecem suas vidas longe de um ambiente de tamanho risco e temor nos quais viveram.

O longo caminho de um guerreiro

O homem arquejava fortemente. Havia caminhado por cerca de 300 quilômetros durante quatro dias de fuga. No caminho, três de seus companheiros prisioneiros de uma asfixiante prisão subterrânea não agüentaram de cansaço, fome e sede, e estiraram seus corpos sobre a terra, incertos de seus destinos. Ele ainda tentou convencê-los da importância de continuarem juntos, naquela perigosa peregrinação pela sobrevivência. Afinal, as tropas do exército vencedor, lideradas pelo Brigadeiro Anssumane Mané, o chefe do Estado Maior de Guiné Bissau, eram incontestavelmente mais numerosas e preparadas para a guerra civil iniciada em junho de 1998 e que dividiu o país por cerca de 11 meses. Por isso, seguramente, uma fuga solitária não seria a alternativa mais sensata para aquele momento.

Mohamed Lamine Sambu era um jovem sargento, de 21 anos, muito perspicaz e a inteligência vinha lhe garantindo a vida por aqueles meses de intensas batalhas, nas quais lutava defendendo um exército debilitado desde o início do combate. Ao resolver iniciar o assalto ao governo do presidente eleito João Bernardo Vieira, popularmente conhecido como Nino, Anssumane contou com o apoio da maioria das forças militares do país, incluindo os oficiais de alta patente, mais experientes, restando a Nino a fidelidade de uma minoria, além de tudo, composta majoritariamente por jovens soldados.

E era o sargento Mohamed que, ofegante, insistira em não deixar de caminhar e, agora, ao avistar uma pequena vila, tinha a oportunidade de desfrutar de algum descanso, na sombra de uma árvore, sem deixar sequer por um segundo de desconfiar daquele momento de mínimo alívio que gozava. A escola militar já havia lhe ensinado uma regra básica, num momento de tensão política e militar como aquele: sempre desconfiar, de qualquer pessoa que fosse. Qualquer delação poderia custar-lhe a vida. E, portanto, apesar da sede, que era o que mais castigava, o jovem ficou alguns minutos calado sob a árvore, observando o local.

Seus olhos perceberam a algumas dezenas de metros a presença de uma figura insólita. Era um homem, que cavava a terra, à procura de algo. Pela aparência e vestes, o jovem deduziu ser um curandeiro e que deveria estar extraindo da terra algumas raízes, provavelmente necessárias para fazer suas soluções de cura. O que ele mais queria naquele momento, parecia ter encontrado: um local aparentemente isolado para se reabilitar. Mas, de qualquer maneira, sua consciência estratégica e cauta ainda o perturbava, impendido de recorrer ao curandeiro, para qualquer ajuda que fosse. Sua cabeça turbilhava de pensamentos e um raciocínio mais seguro veio num átimo. Mohamed afastou-se um pouco do homem, escondendo-se atrás de uma outra árvore. Começou, então, a forçar uma tosse, um sintoma simples, mas que certamente chamaria atenção de um homem cujo ofício é o de se preocupar com a cura dos outros. A resposta foi instantânea:

“Quem está aí?”, perguntou o curandeiro.

Mohamed continuou a tossir, intermitentemente, transmitindo fraqueza a ponto, quem sabe, de não conseguir sequer ouvir a pergunta. Tudo calculado. O curandeiro insistiu:

“Quem está aí? O que se passa? Precisa de alguma ajuda?”

O homem pôs-se a caminhar, procurando o suposto adoentado. O jovem Mohamed, então, manifestou-se, fez-se ver, numa atitude sabidamente por ele ser ousada, mas justificada pela sua necessidade de sobrevivência.

“Preciso de água, muita água”, pediu o jovem militar, com as vestes tão sujas e depauperadas que sequer aludiam à discreta farda que vestia. O curandeiro balançou a cabeça, negando-se a atender a súplica. Mas, nisso não havia nenhuma resistência em ajudá-lo. Pelo contrário:

“Não, não pode. Há quantos dias não come ou bebe alguma coisa?”

“Caminho há quatro dias solitariamente, sem qualquer suprimento”, disse Mohamed, já intuindo certa confiança naquele sujeito.

“Certo, espere aqui. Trarei um pouco de água, mas beba aos poucos e o mínimo que puder. Nesta situação, beber demais poderá agravar sua situação.”

Daquilo Mohamed não sabia, mas acreditou no conselho que recebera. Bebeu pouco, apesar da vontade quase incontrolável de sanar sua sede com litros e mais litros de água.

“Vou buscar algo para você comer”, disse o curandeiro.

Mohamed aquietou-se, mas durante a demora do curandeiro, a cautela excessiva o perturbou novamente. Aquele tempo poderia ser o suficiente para que o homem, que já agora lhe parecia astuto demais, o delatasse, caso deduzisse que ele estivesse fugindo das tropas de Anssumane Mane. Afinal, a notícia de que a guerra terminara, com sua vitória garantida e presumida, poderia já ter chegado aos mais reclusos cantos de Guiné-Bissau.

Mohamed se escondeu novamente, não perdendo de vista o caminho percorrido pelo curandeiro. Passados alguns minutos, avistou-o, com alguma comida à mão e, não resistindo, caminhou em sua direção, já com a intenção de lhe contar sua história e fugir o mais rápido do país. Comeu vorazmente.

“De onde você vem? Por que está neste estado?”

“Vou lhe contar o que se passou comigo.” A serenidade de seu interlocutor lhe permitiu que narrasse sua história, sem qualquer interrupção. “Lutei por Nino. Entrei no exército aos 18 anos, e lá na escola militar aprendi tudo o que sei. Aprendi a defender, sobretudo, a leis de meu país, a Constituição. E, iniciada a guerra, não hesitei em ficar ao lado do presidente democraticamente eleito pelo povo, pois é por isso que zelo. Mesmo sendo minoria os militares que o apóiam, fui convicto nesta minha decisão. Acabei capturado, mas consegui me libertar ao reconhecer um antigo colega de exército, já como oficial, cuidando da prisão subterrânea onde fiquei cativo. Era pouco espaço para muita gente. Tive a sorte de reservar meu lugar junto a um canto mais arejado, por onde não me faltou oxigênio, enquanto vários outros, mais amontoados, vi morrer por asfixia. Meu colega me abriu a cela e consegui fugir com mais três que souberam aproveitar a ocasião.” Mohamed falava sem parar e a perspicácia e a coerência com que narrava sua trajetória envolvia fortemente o silencioso curandeiro.“Desde o início da fuga, fui o único a defender que caminhássemos juntos, até chegarmos a algum lugar seguro. Mas os outros três se renderam ao cansaço no terceiro dia e se estiraram sobre a terra. Então, segui sozinho até chegar aqui. Preciso fugir do país, pois as tropas de Anssumane já tomam conta de tudo.” Enfim, terminou de falar. E ouviu o conselho do curandeiro:

“Vou conseguir um carro de viagem que te leve ao Senegal. Lá, estará mais seguro.”

Os carros que faziam a viagem até a fronteira entre Guiné-Bissau e seu vizinho ao Norte, o Senegal, em geral, esperavam a lotação máxima para partir. O hábito naquele pobre país era este. Quem quisesse viajar, tinha de esperar que outros seis interessados aparecessem e, aí assim, o carro seguia. Mas o tempo, naquele momento de risco para Mohamed, poderia significar sua própria vida, por isso, a nova idéia de seu agora confiável parceiro:

“Vou pagar a viagem completa para que não seja preciso esperar as outras pessoas. Assim, rapidamente você estará longe daqui”.

“Não!”, discordou o jovem militar. “Quando chegarmos à barreira militar próxima à fronteira, certamente, desconfiarão ao ver um carro com apenas um passageiro. É melhor seguir o protocolo e irei com outros seis ocupantes.” O curandeiro rendeu-se ao inteligente raciocínio de Mohamed, assentindo sua opinião. O diálogo acabou ali. Era hora de agir.

Pela sobrevivência, rumo ao Norte, ao Senegal

Os dois se dirigiram ao local, não muito longe dali, de onde costumavam sair os veículos em direção à fronteira. A tensão da operação de fuga armada pela dupla era visível. A guerra, que eclodira no dia 7 de Junho de 1998, não havia durado mais do que exatos onze meses para que Anssumane tomasse o palácio do governo em 7 de maio de 1999, obrigando Nino a pedir asilo político em Portugal. E o que restava, naquele momento da fuga, era a certeza da derrota da causa defendida por Mohamed e o medo de cair novamente nas mãos do exército do novo governo golpista. Este risco era alto, pois as fronteiras estavam intensamente militarizadas com grande parte da população civil a favor dos vencedores. Em seu próprio país, o jovem militar era, definitivamente, um intruso e, o que não sabia, é que seria também um intruso no próprio veículo pelo qual pretendia fugir em direção à liberdade.

Finalmente, ele entrou no carro, acompanhado de outros seis civis. O curandeiro se foi. As pessoas que ocupavam o automóvel não sabiam que estavam envolvidas na pretensão de fuga de um militar que lutara do lado do presidente Nino. Mas, talvez pela sua aparência mal-tratada e o clima de apreensão que contaminava a população em geral pelo recente fim da guerra deu a certeza a um dos ocupantes civis que algo era estranho na presença de Mohamed naquela viagem.

“Ao chegar perto da base militar, que ficava a uns 5 quilômetros da fronteira, um dos passageiros fez um sinal para um oficial”, lembra Mohamed. Em poucos segundos, percebeu-se certa mobilização entre os militares. “Um tanque de guerra começou a nos perseguir”, conta. O motorista amedrontou-se e compreendeu rapidamente o motivo daquilo, quando, ao esboçar parar o carro para qualquer tipo de fiscalização ou esclarecimento, ouviu Mohamed obrigá-lo a seguir em frente e acelerar o automóvel em direção aos poucos quilômetros que separavam Guiné-Bissau do Senegal.

O motorista hesitou. Num movimento brusco, Mohamed jogou-o para o lado e assumiu a direção do veículo. Em alta velocidade, concentrou-se no seu norte, no seu único objetivo naquele instante: a liberdade. Acelerava e avistava o horizonte fronteiriço entre as duas nações. O tanque o perseguia, e aqueles poucos quilômetros marcaram a lembrança do fugitivo como um ato heróico. Enfim, ele ultrapassou a fronteira. Sua sobrevivência, naquele momento, estava assegurada.

Livre, mas nem tanto

Mohamed estava livre do risco de morrer no seu próprio país ou acabar novamente capturado como preso de guerra. Mas, por outro lado, já se via como um desterrado, longe da pátria onde se criara e vivera toda a vida. Também já imaginava a possibilidade de nunca mais rever sua família que, ao início da guerra, fugiu para uma região rural e mais segura de Guiné-Bissau, preservando-se viva. Era uma família pobre. O pai, enfermeiro, sustentava a casa. A mãe era dona-de-casa e dividia o marido com outras três esposas. “Eu tinha uma irmã por parte de pai. Mas nunca gostei muito da idéia de ele ter outras mulheres, mesmo isso sendo parte da cultura de nosso país”, diz ele, mantendo o mesmo olhar convicto de quando justificou o porquê de defender um exército claramente desfavorecido durante a guerra.

Em Guiné-Bissau, aproximadamente 98% da população seguem a religião muçulmana, assim como a família de Mohamed. Aqueles que optam pelo cristianismo são, muitas vezes, agressivamente segregados, ficando sempre expostos a violências de todos os tipos, inclusive de suas próprias famílias, caso divirjam da crença islâmica delas. Mas, ao menos nesse ponto, o convicto Mohamed nunca manifestou nenhuma resistência.

Ao chegar em território senegalês, logo se dirigiu à base militar mais próxima da fronteira, de onde foi levado ao quartel de Dakar, capital do país. Não houve grandes problemas. No Senegal, ele viveu os primeiros meses sem qualquer ameaça. O governo recém-chegado ao poder em Guiné Bissau, sabendo que muitos de seus adversários militares e políticos haviam fugido para os países vizinhos, manifestou-se a favor do retorno pacífico deste contingente. Mohamed não acreditou em nenhum momento nisso. E ele tinha razão. Era uma falácia estratégica. “Um guineense também fugitivo que encontrei no Senegal acreditou no que o governo de Anssumane declarou. Depois de algum tempo, me disseram que ele foi fuzilado ao chegar ao país.”

Porém, com o tempo, a sua permanência no Senegal provou não ser de grande segurança. Durante o quase um ano que durara o conflito militar guineense, as relações diplomáticas com os países vizinhos, como o Senegal, foram interrompidas. Com a consolidação do novo poder, no entanto, começaram a ser reatadas. Este estreitamento acarretou na retomada de missões políticas e militares de Guiné-Bissau ao país. E, a cada uma dessas visitas, o pânico voltava a incomodar a relativa paz na qual o sargento vivia. “Cada vez que sabia da presença de alguma missão desse tipo, percebia que não estava seguro nem ali”. Resolveu, então, fugir novamente para o Cabo Verde, nação formada por um conjunto de ilhas no Oceano Atlântico, próximas à costa africana, e também colonizada pelos portugueses, como Guiné-Bissau.

Lá, Mohamed viveu uma vida simples, sustentando-se por meio de trabalhos esporádicos, mas, ao menos, sem o temor permanente de ser capturado outra vez. Ele viveu por cerca de cinco anos sem grandes perspectivas, longe de sua família, do ambiente militar que o formou e socialmente restrito a pequenos grupos de guineenses fugitivos como ele. Cansou-se quando soube que o Estado Maior do Senegal visitaria o Cabo Verde. Com a aproximação entre aquele país e a Guiné-Bissau já consolidada, certamente aquilo não deixaria de ser um risco para um fugitivo como Mohamed. “Nessa hora, resolvi ir embora da África, queria atravessar o Oceano, para bem longe dali”.

Entre seus compatriotas, falava-se muito no Brasil e nos Estados Unidos como opções para recomeçar a vida. “Mas os Estados Unidos, eu pensei, se envolvem em tudo que é guerra no mundo e, ultimamente, têm sido alvos do terror. Resolvi vir para o Brasil, principalmente por ter informações de ser um lugar livre, sem guerras como as da África e ter um ambiente relativamente pacífico.” O idioma português também não deixava de ser um estímulo para a sua escolha.

Forlateza-CE, Brasil, 6 de maio de 2005

Mohamed Lamine Sambu já não era mais o jovem militar de 21 anos. Agora, aos 28 anos, chegava à capital cearense, decidido a refazer a sua vida de vez. Chegou de avião, com a passagem paga com o pouquíssimo dinheiro que tinha. “Ao descer no Brasil eu tinha o equivalente a 200 reais. ” Já no dia 25 de maio, ele chegava a São Paulo, informado de que na cidade teria que cumprir as exigências burocráticas para a legalização de seu status de refugiado na Caritas Arquidiocesana de São Paulo, entidade civil oficial de assistência aos refugiados, com sedes em São Paulo e Rio de Janeiro.

“Fui muito bem recebido ali”, diz ele. O processo legal de convencimento de que sua situação era realmente de refúgio tramitou de maneira tranqüila e em apenas um mês ele recebeu um protocolo de legalização de sua permanência ao ser entrevistado por uma equipe do Comitê Nacional para Refugiados, órgão do governo federal, vinda de Brasília. Sua situação na África era claramente de risco de morte e de perseguição.

Após chegar à capital paulista, ele foi encaminhado à Casa do Migrante, um albergue muito bem cuidado pela Arquidiocese de São Paulo em parceria com a Prefeitura, onde mora até hoje. Nesse tempo, a Caritas também vem lhe garantindo um kit-higiene mensal, com giletes, escovas de dente, sabonete, perfume entre outros itens de necessidade básica.

Com dificuldade para arranjar emprego, conseguiu também, a partir do dia 12 de setembro, uma doação mensal da entidade no valor de 150 reais, que tem utilizado para se locomover à procura de trabalho e para complementar sua alimentação. A assistência, em seu caso específico, vale por três meses.

Mohamed é um homem inteligente e eloqüente. Sua educação militar lhe deu uma postura prática e ativa diante das dificuldades que não pararam de aparecer em sua vida. Hoje, já tem a consciência da necessidade de se capacitar profissionalmente para, enfim, conseguir uma fonte de renda estável, que o desprenda do bem-vindo e indispensável assistencialismo que lhe garante uma vida minimamente digna, num país que conhece há apenas cinco meses.

“Já solicitei vaga para um curso técnico de modelagem no Senai” – entidade com a qual a Caritas tem convênio. “Só estou esperando surgir uma vaga. Não vejo a hora de começar a produzir algo de bom e me aperfeiçoar em alguma área”. Por enquanto, ele freqüenta o Sesc do Carmo algumas vezes por semana para freqüentar a biblioteca e usufruir o desconto de 60% no almoço, obtido através do “cartão verde”, o cartão-alimentação concedido pela instituição para ajudar os refugiados. “As atividades que oferecem no Sesc são muitas, mas só gosto de ir lá para ler. Meu objetivo maior mesmo é conseguir um emprego”.

Nesse pouco tempo de Brasil, ele se diz impressionado com a beleza das praias do Nordeste, que conheceu durante o período em que desceu de Fortaleza para São Paulo, em viagens de ônibus, conforme ia conseguindo algum dinheiro através de trabalhos e serviços rápidos. Mas, infelizmente, o tempo restrito já lhe foi também suficiente para que, por alguns dias, ele desconfiasse da segurança que vinha tendo no país. “Percebi desde o início o preconceito contra os negros no Brasil”. Ao ser encaminhado a uma agência bancária para tirar seu CPF, Mohamed viu-se numa situação, que nem a guerra civil guineense o colocou. “Uma funcionária do banco me indicou uma porta para que eu entrasse. Por engano, eu entrei no local errado e em poucos segundos senti uma arma encostada na minha cabeça. Era o segurança do banco. Isto já está marcado na minha memória, mas de qualquer maneira, sinto-me bem mais seguro no Brasil”, conclui Mohamed.

Este texto é um capítulo do livro-reportagem Fuga e Abrigo, histórias de refugiados em São Paulo, obra escrita em parceria com os alunos Murilo Bonadio e Denis Eduardo Serio, como Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo – publicado na Revista Diálogos & Debates.

Corredor do DOPS-SP

Postado em Vídeos em 19 maio, 2009 por guilhermesardas

Cenas do corredor onde os presos políticos do DOPS de São Paulo tomavam banho de sol no período mais crítico da Ditadura Militar. As janelas de fundo de quatro celas davam para esse corredor. Hoje, o local abriga o Memorial da Resistência, próximo à Estação da Luz.

Criação

Postado em Brainstorming, Geral em 17 março, 2009 por guilhermesardas

“Parto o filho que me faz nascer, parto o filho que me revela. Pelo rebento literário, nasço de novo, venho ao mundo de novo, através do ventre que nos dias sombrios eu sempre esqueço possuir. Incrível, a Criação, seja ela qual for, só pode ser obra materna, é gestada e expelida com tempo e zelo de Mãe. Não há dúvidas, Deus é Fêmea.”

Abriu as pernas, acomodando-se para o momento cabal. Segurou firme com as mãos e, mordendo o berro, aos poucos viu nascer de si aquela massa banhada de sangue,  aos prantos e ansiosa por vida…Era um conto, e não era erótico.

Crepúsculo

Postado em Brainstorming, Geral em 17 março, 2009 por guilhermesardas

“Entre o correr das brumas e o desvanecer do cinza que cobria o céu, pôde avistar então o sol dourado e reluzente que, para a sua surpresa, recobriu cada canto escuro e oculto da paisagem como um oceano infinito de luz e fortuna.”

Era manhã e o jovem se revigorou imensamente ao ouvir estas palavras sopradas do vento que adentrava o quarto. Levantou-se da cama e viu da janela da choupana o crepúsculo irradiar no firmamento. Era o anúncio da boa nova, da sua boa nova, era o universo conspirando a seu favor no nascer do dia.

Lenitivo

Postado em Brainstorming, Geral em 13 fevereiro, 2009 por guilhermesardas

“A Literatura é mero lenitivo. Só alivia, não resolve nada. Mas pede pouco a pouco um limite à autoimersão, pra nos empurrar goela abaixo a ideia de que é na vida, e só nela, que se pode achar o sentido da própria existência, da alegria e da motivação.”

O rapaz acordou do cochilo e sua mente resumiu o devaneio nessas palavras. Viu ao lado o livro entreaberto e os cigarros apagados no cinzeiro, e teve nojo. Levantou-se, tomou um banho, fez a barba e viu no espelho um olhar agradável. Eram mais de onze horas da noite e tinha o primeiro minuto do dia de alguma satisfação.

Rumo ao “sei lá o quê”

Postado em Brainstorming, Geral em 10 fevereiro, 2009 por guilhermesardas

“Não acredite no grito de desistência, no berro de desespero, no anúncio agonizante do fim. Quando a vida quiser lhe avisar que algo terminou, ela dirá, quase silenciosamente gaga, borrifando a morte da ideia no triste suceder dos dias”.

Ao ouvir estas palavras ressoarem do próprio coração, ele percebeu que a expectativa era um cancro, lodo, entulho que impedia que o rio da vida fluísse pelas intrépidas corredeiras rumo ao “sei lá o quê”.

Final de expediente

Postado em Contos, Geral em 3 novembro, 2008 por guilhermesardas

sertao“Sr. Secretário, mais problema”. A frase do Batista logo me chamou atenção naquele dia em que os papéis se avolumavam sobre a mesa sem qualquer pretensão de despacho. O Dr. Magalhães, que tinha acabado de desligar o celular com um sorriso debochado, deu um suspiro profundo e foi logo querendo saber: “Ah não, o que foi agora?”. “É o Luizinho, o caboclo tá virando Deus lá em Canapi”.

Eu não tinha muito o que fazer naquela quarta-feira, como de costume, e quando ouvi o Batista alertar o Dr. Magalhães achei não sei bem por qual razão que aquele papo ia mexer com o dia. Na verdade, eu meio que antevi aquilo umas horas antes, quando cheguei cedinho no gabinete e, antes de acender a luz, carimbei com a sola do sapato um telegrama assinado pelo Cledir. “Xiii”, pensei.

Não eram nem duas e meia. Não dava nem pra horda de chupins e puxa-sacos se esconder atrás das telas do PC, esperando em câmera lenta o expediente acabar e o problema evaporar junto com a claridade do dia. Confesso que eu, que devo ser o menos puxa-saco e também o mais inútil por lá, vibrei quietinho no meu canto, afoito por novidade.

Eu conhecia pouco o Luizinho, por telefone, mas gostava dele. Até uns meses atrás ele vivia ligando pra falar com o Dr. Magalhães – sempre me cumprimentava pelo nome e trocávamos palavras simpáticas. Sei lá o que aconteceu, mas da noite pro dia, quando eu anunciava no PABX “Doutor, é o Luizinho de Canapi, o sr. pode falar?”, passei a ouvir um silêncio aflitivo seguido de uma dispensa qualquer. Isso se repetiu umas vinte vezes, fatal, como dois e dois é quatro. E aí o caboclo parou de ligar…

Outro dia ouvi o Batista conversando com o Tadeu, o contínuo. Ele comentou que o Dr. Saulo, ministro das Cidades, andou elogiando o trabalho do Luizinho em reunião lá no Palácio – no Palácio! “Fui a Canapi e pude ver o belo trabalho realizado pela sua pasta, sou testemunha”, teria dito ao Dr. Magalhães.

Só ficou meio chato na hora em que o ministro pediu detalhes e parece que o doutor balbuciou uma meia-dúzia de palavras (“cisternas”, “poços artesianos”, “atividades culturais”) e corou feito tomate quando viu estampado na cara dele um semblante de “Ok, você é mesmo um imbecil, não sabe de nada, deixemos Canapi de lado.” É, não que eu esteja de acordo, mas pela lógica lá do gabinete, devo admitir: nessa o Luizinho passou dos limites.

Como eu disse, não conheço muito bem o caboclo. Dizem que trabalha feito touro, não é de sindicato nem nada, mas tem um carisma de animar velório. Parece também que é magrelo e muito, muito generoso. Disseram que sustenta oito filhos, quatro adotados. Outro dia vi uns papéis jogados aqui na mesa, dá só uma olhada nisso:

“Janeiro: as duas escolas prometidas viraram sete, e já estão em atividade: três dispersas no terreno da extinta fábrica de vassouras, duas no prédio abandonado da colônia dos magistrados e mais duas erguidas em trinta dias, num acerto solidário com o sr. Eduardo Mendes, dono da rede de materiais de construção de Ouro Branco.

“Fevereiro: as aulas de música e de educação física já comportam trezentas crianças de 7 a 18 anos, divididas em doze turmas, de segunda a segunda. Há lista de espera de mais duzentas crianças. A primeira escola técnica foi inagurada no último dia 15. Já chegaram os materiais didáticos de todas escolas, com exceção da escola técnica que aguarda encomenda feita pela Secretaria ao governo federal.”

Olha, eu fiquei lendo toda lista naquele calor do gabinete e fiquei até zonzo. Muita coisa boa, de janeiro a novembro. Agora o Natal vem chegando e dizem que os preparativos pros festejos lá em Canapi tavam mexendo com a cidade. Há umas semanas, pensei até em fugir por uns dias com a Dorinha pra lá no fim do ano. Há umas semanas…

É que naquela quarta-feira em que o Dr. Magalhães recebeu o telegrama do Cledir, prefeito de Canapi, e depois o recado do Batista, o celular do doutor não parou mais. Tudo abafado atrás da porta trancada. O Dr. Magalhães só apareceu na sala para deixar aquelas folhas de fax com as atividades do Luizinho e me pedir que passasse pro computador. Ao longe, ouvi a voz do doutor se apagando, dizendo pro Batista “o caboclo vai ganhar nota de mérito, já acertei com o Dario lá do Tribuna do Dia”.

Pensei que aquilo era mesmo uma beleza, um reconhecimento de verdade. Aí foi o meu celular que tocou, era o Mineiro, lá de Canapi, um velho amigo que ficou de ver os preços dos festejos pra mim e pra Dorinha. Ele só disse que talvez não houvesse mais nada, que o sujeito que tava à frente de tudo levou um balaço no peito e agora a cidade tava em polvorosa, e desligou. Quando já era final de expediente, quase seis da tarde, vi o Batista acender um cigarro, se encostar na mesa e avisar baixinho o Tadeu:

- Parece que o Luizinho caiu…

Na solitária

Postado em Contos, Geral em 10 outubro, 2008 por guilhermesardas

3Haviam dito em algum lugar dali que o estado do cativo era deplorável. O oficial Nereu logo se dirigiu ao cárcere e constatou que era mesmo caso de se fazer algo. Abraçado às pernas, Miro tinha o corpo recostado na lateral do catre e os pés chatos colados no cimento frio. Ao lado, uma pequena bacia desbotada com restos de arroz e sobras da carne enervada de péssima qualidade. Com um saco grande na mão, o oficial bateu a chave na grade, como um aviso, e despejou uma porção generosa da mesma ração insossa que o coitado comia há dias. Retirou-se.

Só algumas horas depois, Miro acordou e matou a fome com dez ou doze punhados do misturado frio. Levantou-se com calma, para que o anel grosso da corrente que prendia seu calcanhar direito não o traísse novamente. Na pele flácida que cobria a canela, vía-se os ferimentos que o anel causara, como rabiscos sobrepostos em tons cinzas e avermelhados. Ainda ouvia os barulhos metálicos vindos dos corredores, uns estalos agudos indecifráveis e as vozes de cada um dos oficiais. O que falavam chegava aos seus ouvidos como ruídos bagunçados, pouco compreensíveis, que quase sempre terminavam em risadas.

Tudo aquilo era tão intenso que percebera desde os primeiros cortes no calcanhar que não suportaria por muito tempo. A voz grossa e rouca do delegado era desagradável demais; a falastrice do baixinho subalterno também, e ainda mais insuportável. Aguentava ainda a indecência do olhar cínico do escrevente que às vezes dava as caras por lá e a gagueira vergonhosa de um gordo careca que não largava os papéis e nunca tirava do bolso da camisa um crachá velho e lascado.

Às vezes se punha a pensar em como seria se tivesse a companhia de um carcereiro soturno, um velho decrépito qualquer que desafogasse sua angústia dialogando nas solitárias. Sonhava também com o dia em que aquele grupo sórdido se fosse dali e desse lugar a um outro, renovado, e que certamente demoraria algum tempo até se corromper de vez. Mas não valia a pena. Era nesses dias que mais sentia a bile gritar no estômago e que podia ver seu olhar ganhar um ar colérico por mais que não houvesse um caco de espelho por ali.

Teve um dia em que o gordo careca entrou na cela, inquiriu-lhe sobre dois ou três assuntos, anotou num papel amarelado uns garranchos e saiu apressado apertando as narinas, incomodado com o odor do local. Nem viu que esqueceu sobre o colchão duro e cinza a canetinha vagabunda que costumava prender no bolso da camisa ao lado do crachá lascado. Logo que o homem se retirou, Miro reparou na falha, mas não fez questão de avisá-lo. Também reparou no resto de um melado doce no dedão do oficial e se entorpeceu com o cheiro de chocolate mole que aguçou sadicamente seu paladar.

A canetinha vagabunda ficou ali mofando por uns dias, ornando o cenário triste e vazio: junto ao copo, ao penico, à bacia desbotada e a duas peças de roupa surradas. Numa manhã, uma luz tênue adentrou a janelinha da cela, fazendo no chão uma estradinha iluminada que perpassava a caneta e se apagava rumo ao corredor escuro. Miro pegou o objeto e, primeiro, preencheu toda a mão esquerda com uma frase comprida, desconexa e sem pontuação. Depois, lembrou do rolo velho e deformado de papel higiênico jogado sob o catre, e pôs-se a pintar de letras cada uma de suas folhas ásperas.

Foi então que o feixe de luz que riscava o chão perdeu as margens e, pouco a pouco, foi tomando toda a cela como o brilho intenso e orbital de um enorme holofote. Penetrando o resto da escuridão, um bando de borboletas coloridas e eufóricas recobriu a atmosfera plúmbea em um arco-íris esvoaçante e ilimitado. Do centro da paisagem, nasceu uma bolha alvíssima e cremosa, que se inflou devagar até formar um lençol bojudo. O pano gordo cresceu até desenfronhar, dando passagem a uma passarada barulhenta e desordenada. Aí se viu a revoada planar sem freio, criando pequenas piscinas de água cristalina ao resvalar a superfície do assoalho.

Havia ainda uma mancha negra, quase irrisória, abaixo do cadeado que trancava a cela, mas que foi clareando ao mesmo tempo em que a porta de ferro balançou e se abriu de vez. Miro avistou por entre o colorido o corpanzil do delegado, abrandado por um sorriso agradável. Ao fundo, vinha o escrevente com os olhos espremidos entre as rugas, que lhe davam uma feição risonha e amistosa. Em seguida, o oficial Nereu também apareceu por lá e lhe entregou um farnel enorme e pesado: uma ceia completa de frutas frescas e víveres diversos. Serviu ainda um vinho doce e delicioso numa jarrinha de vidro gorducha.

Como se orquestrasse um espetáculo em clímax, Miro balançava a canetinha vagabunda feito batuta no ar. E, bem aos poucos, as trilhas aéreas dos passarinhos, a correnteza das águas transparentes, o refulgir das borboletas coloridas, tudo foi se aquietando. Miro caiu seco no catre e do teto rebentou um sugar potente e silencioso que aspirou toda a imagem como o olho de um furacão acinzentado, e a luz se despediu.

No dia seguinte suas pernas mexeram cautelosas, viciadas, para não se ferirem no anel traiçoeiro. Seu braço esticou procurando o penico, que não estava lá. Nem as peças de roupa surradas, nem a bacia desbotada. Logo viu a porta de ferro entreaberta e rumou ao corredor escuro sem que peso nenhum no calcanhar impedisse a caminhada. Suas pupilas dilataram na entrada da salinha vazia que não tinha nenhum sinal de vida. E se foi finalmente e totalmente nu raspando as solas grossas do pé sobre o cascalho que tinha fim na calçada.

Diante das águas translúcidas

Postado em Contos, Geral em 10 setembro, 2008 por guilhermesardas

narcisoDiante das águas translúcidas, olhou o reflexo de seu semblante inquieto. A paisagem multicolorida e vicejante, como uma moldura infinita ao redor de seu corpo, era belíssima para quem o via ali, sozinho e reflexivo.

Ao fundo, bosques diversos e feixes de luz dourada incidiam sobre folhas, galhos e sobre suas costas. Mas seu tronco curvado não deixava que os raios iluminassem sua face: a postura impedia que se visse seu rosto franco.

Há algum tempo perambulava nas trilhas mais inóspitas, investigava as grutas mais sedutoras, embrenhava-se nos cantos mais escuros. E depois se punha no mundo iluminado, contemplando as aves, escutando o assobio do vento, encarando o mar, buscando naquilo o contraste instigante com suas idéias confusas.

Uma desgastante dúvida o atormentava: “Quais alimentos buscar? Devo me arriscar atrás das férteis árvores repletas de frutos vermelhos e alaranjados que posso vislumbrar daqui? Parecem suculentas, deliciosas, de abrir o apetite. Que merda! Enquanto isso me sobram estes frutos secos e insossos que dão em qualquer canto”.

“Não, não, aqueles frutos são ilusões evidentes. Ao tentar colhê-los, despencarei daquelas belas e frondosas árvores. E quando voltar para matar a fome nos frutos ordinários, algo me punirá, fazendo-os sumir por completo. Ora, mas que bobagem pensar assim, superstição. Mas, não, é a minha intuição! Se não respeitá-la, o que me sobra?”.

Erguendo-se diante do mar, caminhou desiludido. “Dúvida de merda! Maldito dia em que descobri aqueles atraentes frutos!”. Enfim, alimentou-se do que tinha e em poucos segundos já se sentia melhor.

Caminhou, caminhou, caminhou. E aqueles barulhinhos insistentes, sutis e curiosos reapareceram. “Deve ser ela, com certeza”. Era o velho som dos braços finos e ágeis raspando a folhagem, como uma criatura lépida resvalando a mata. Resolveu segui-la. “Hoje ela não escapa, quero ver seu olhar de novo”.

Uns cem, duzentos respiros e, rasgando os arbustos, deu de cara com ela. A moça de costas, cor de bronze, algumas riscas coloridas sobre a pele e a força da cor dos seus cabelos negros. De relance, viu também a mesma força no risco das sobrancelhas, a força dos lábios bem delineados e outras forças mais.9

No silêncio total, a moça virou-se e flagrou seu olhar perplexo. Um sorriso discreto e breve avisou-o sobre o que deveria fazer. Era um convite para se banhar com ela na nascente tranqüila do riacho. Um, dois, três, quatro, cinco: ele imóvel e ela se foi. “Filha da puta! O que ela quer afinal?”

Saiu dali, voltou a perambular. Verdadeiros portais de inexplicável beleza, flores de um azul incomum, pequenos animais rasgando o chão a menos de um metro, olhares de aves cumprimentando-o. E seus olhos apenas olhavam o chão, os pedregulhos e o barro, sem ao menos enxergá-los. Resolveu procurar um bom lugar para dormir.

Demorou a pegar no sono. Era tanta vida ali reunida! Para ele, o cair do dia; mas quantos bichos estavam acordando? Quantos tinham naquela hora os olhos vibrantes atrás da caça? Também uma centena de almas se enroscavam sedentas de amor naquele instante. No céu límpido, o luar prateado denunciava que ali nada dormia. Enfim, pegou no sono.

Fustigando suas pálpebras, o sol acordou seu corpo. A consciência também foi acordando. Tinha fome e, além disso, o que mesmo tinha a fazer naquele dia? “Os frutos avermelhados, deliciosos! Será? E o risco? A musa da cor de bronze, deliciosa, o riacho! E a festa na aldeia, é hoje! Oh, não!”.

Confuso, a passos ligeiros foi ao mar. Ajoelhou-se, banhou o rosto e, diante das águas translúcidas, olhou o reflexo de seu semblante inquieto. “Inferno!”

Um braço de couro vermelho

Postado em Contos, Geral em 5 setembro, 2008 por guilhermesardas

11Foram direto aos bilhetes, compraram e se sentaram. Nas poltronas do meio: “nem muito ao céu, nem muito à terra”. Meio longe da penumbra onde dois ou três casais se acomodavam.

Começou. Fotografia escurecida, um quarto meio pobre e um dia vulgar. Na pouca luz, de relance, um olhar feminino e vazio. Saiu apressada, bateu a porta e virou as chaves.

Caminhou quarteirões, subiu a escadinha e abriu a porta: a sala vazia. Virou-se e deu de cara com ele, no banheiro, fazendo a barba. Discutiram e a porta bateu, seca.

Na poltrona, pipoca, suco e um delicado par de cílios meio inquieto. Na do lado, água e um olhar calmo e incógnito atrás das lentes. No meio, um braço flexível de couro vermelho, intacto.

Ao fim daquilo, um belo papo prometia. Há muito que não se viam. Quem sabe filosofia, psicologia, ou um punhado de cada. Aí os velhos hábitos viriam à tona e os dois se aproximariam para além do braço de couro vermelho. Era esperar pra ver.

Música tocante. Mais um pouco de drama, confusão e blá blá blá. Um crescente, uma dúvida fundamental, o ápice e o desfecho. Fim, mas “showtime”. O outro filme começaria.

Ela recolheu os lixos; ele, com o copo de água vazio nas mãos. Sem combinar, saíram compassados. “Gostou”? Ela não foi impulsiva: “Hum, sim, interessante, e você?”. “Bom, bom, pra se pensar”.

Ela queria se conter, mas: “Engraçado, a gente imagina tanta coisa, lembrei da gente”. “É, é difícil não relacionar alguma coisa”, respondeu. Ela queria ir além, mas hesitou, como se não precisasse.

Entraram no carro, olharam-se por um instante. Aqueles velhos e conhecidos semblantes, agora como duas fotos paradas, sem ânsia. Era estranho e natural, e natural porque previsível. Como um filme mudo e anódino, e o pior, de enredo incompleto.

Sobre a mudez, talvez, não houvesse volta, persistiria no tempo. Mal desconfiaram de que o filme que viram não havia acabado e que os casais das poltronas do fundo voltavam do intervalo para assistir a segunda parte.

Raízes esquecidas do mesmo Brasil

Postado em Geral, Matérias em 22 novembro, 2007 por guilhermesardas

sergio1Raízes do Brasil, do célebre historiador brasileiro Sérgio Buarque de Holanda, é sempre lembrada quando se fala do nascimento da moderna historiografia brasileira. Costumeiramente elencado ao lado de Gilberto Freyre e Caio Prado Jr., o autor de Raízes ganha destaque especial por trazer uma abordagem que se faz saborosa e fluente, sem deixar de cumprir o rigor histórico das grandes obras.

Em Raízes, SBH investiga os caminhos escolhidos pelos portugueses no processo de colonização e os efeitos da mentalidade lusitana na formação da sociedade brasileira. O ensaio traz interpretações que chegam a torná-lo quase atemporal e totalmente indispensável para a continuidade da discussão historiográfica no Brasil. Certamente, por isso, ajudou a cristalizar alguns conceitos essenciais da história brasileira.

Características tidas como genuinamente brasileiras encontram aqui sua gênese. O “jeitinho brasileiro”, que invade tantos aspectos da vida brasileira, desde seu cotidiano ordinário até as instâncias mais “impolutas” do poder, é aqui destrinchado de maneira habilidosa. SBH, a partir de um foco sociológico, alcança a história psicológica dos povos, a essência da mentalidade do povo português e sua influência capital na formação da sociedade brasileira.

E sobre esta linha mestra, o sábio autor vai tecendo sua análise. Por exemplo: no que se baseia a economia colonial brasileira? Na agricultura! Na monocultura do açúcar dos grandes latifúndios e de mão-de-obra escravista…

Para SBH, o erro que se esconde atrás desta óbvia constatação é de suma importância. Como considerar agrícola uma economia que não cuida da terra, que a explora, vive de seu lucro, mas não de sua conservação e da otimização do uso desta terra? É assim que os portugueses cultivam-na, sem qualquer zelo que cumpra à exigência conceitual de um verdadeiro sistema agrícola. Basta lembrar o arado, destaca o autor, instrumento amplamente difundido já na Europa Medieval, que foi simplesmente ignorado nas enormes plantações canavieiras no período colonial.

O sistema viário das cidades recém-surgidas no novo país também era naturalmente desordenado. As primeiras cidades brasileiras nasceram ignorando o relevo e sem seguir qualquer estrutura metódica de planejamento urbano, diferentemente do que aconteceu em cidades da Nova Espanha. São várias observações que vão caminhando para o mesmo sentido…

De mão de argumentos sólidos e bem comprovados, da obra vai emergindo uma coerência iluminada, a principal mensagem do autor: a natureza lusitana, seus hábitos, sua cultura e mentalidade trazem em seu gene algo de desordenado, de irracional e relaxado. E com essas raízes fortalecidas por séculos, aos poucos nasce um Brasil similar.

O Brasil da mistura racial, do sincretismo religioso, da cozinha das negras desembocando no salão da Casa Grande…Dos filhos mulatos de pai rico e mãe escrava, protegidos e alforriados, ou escondidos e exilados do Engenho; da contradição das falsas alforrias, que ora punham negros em novo tipo de escravidão, ora os colocavam a escravizar seus iguais…O Brasil de tudo isso é tratado em seu cerne, destacando-se seu caldo predominantemente português.

Esta noção da importância da cultura portuguesa na formação cultural brasileira é geralmente esquecida em nossa História. E é, sobretudo, por essa ótica que SBH olha o Brasil.

Ler Raízes do Brasil, hoje, é como se Sérgio Buarque de Holanda voltasse para nos forçar a reflexão: sendo brasileiros, em quanto somos portugueses? A conclusão ao fim do livro é desconcertante. Talvez, nossa constante afirmação indígena e africana tão em voga nos dias de hoje tenha chegado a tal ponto de esquecermos o quanto somos portugueses. É, a História tem mesmo suas finalidades…