O menino foi pego em flagrante, tentando roubar dinheiro da bolsa da vó que roncava no sofá.
- Francisco, arranca essa mão daí, antes que eu arrebente seus miolos! – gritou
a mãe, furiosa, da porta da cozinha.
O menino de cabeça baixa, balançando o tronco, constrangido, não esboçou palavra. A mãe o catou pela orelha, arrastou-o pelo corredor e o pôs de joelhos no quartinho de fundos, aonde ficava o oratório. Abriu a bíblia numa página qualquer e encaixou nas mãos do pequeno:
- Fique aí até definhar. Quem sabe depois de alguns dias ainda vá para o céu!
- Mas, mãe, eu só queria comprar chocolate na mercearia do Tião.
- Cala essa boca! Não quero ouvir um piu. Por acaso já fez a lição, como tinha prometido?
- Não… – ia engolir o resto da frase, quando resolveu continuar – Mas, por que
essa coisa de comer chocolate só depois de fazer a lição?
- Ah, mas deu pra desaforo agora? – a mãe armou o tapa no ar – Se quer as coisas, faça por merecer!
Por que tenho que fazer por merecer para matar a fome de chocolate? – apenas pensou, dizendo em seguida:
- O que é fazer por merecer?
A mãe ia falar de novo da lição de casa, mas, ajudada pela ira, mudou de estratégia:
- O que é fazer por merecer? É não faltar à aula para vadiar na rua, é não soltar um palavrão cabeludo daqueles na frente de toda a família – ou já esqueceu? -, é não fingir doença pra faltar na catequese… É não roubar, como um pivete, a bolsa da própria vó! – gritou, ensandecida.
Quando a mãe bateu a porta, apressada para tirar o leite do fogão, o menino jogou a bíblia pro alto e saiu em disparada pro meio da rua.
- Francisco, volta aqui! – gritou a mãe.
Quando virou a esquina, deu de cara com o Tião, jogando dominó no tabuleiro do ponto de táxi.
- Ohh, Chiquinho… Chegou na hora boa!
O negro tacou a última peça na mesa, levantou orgulhoso da vitória e rapou o dinheiro de dentro do boné.
- Tome aqui, moleque, umas pratas por trazer a sorte pro velho Tião. Mas, tem que gastar na minha venda…
O menino abriu um sorriso do tamanho do mundo e abraçou forte o negro, como em devoção, enquanto olhava agradecido pro céu…
Deise
29 novembro, 2011
Seu conto me parece muito mais a manifestação de uma alma livre de preceitos religiosos do que uma reflexão profunda sobre eles. O Francisco do conto é esse menino que não tem medo de fazer qualquer coisa para ter o prazer de se deliciar com um chocolate. Afinal, o que há de errado nisso?