O pecador

Publicado em 11 novembro, 2011

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O menino foi pego em flagrante, tentando roubar dinheiro da bolsa da vó que roncava no sofá.

- Francisco, arranca essa mão daí, antes que eu arrebente seus miolos! – gritou
a mãe, furiosa, da porta da cozinha.

O menino de cabeça baixa, balançando o tronco, constrangido, não esboçou palavra. A mãe o catou pela orelha, arrastou-o pelo corredor e o pôs de joelhos no quartinho de fundos, aonde ficava o oratório. Abriu a bíblia numa página qualquer e encaixou nas mãos do pequeno:

- Fique aí até definhar. Quem sabe depois de alguns dias ainda vá para o céu!

- Mas, mãe, eu só queria comprar chocolate na mercearia do Tião.

- Cala essa boca! Não quero ouvir um piu. Por acaso já fez a lição, como tinha prometido?

- Não… – ia engolir o resto da frase, quando resolveu continuar – Mas, por que
essa coisa de comer chocolate só depois de fazer a lição?

- Ah, mas deu pra desaforo agora? – a mãe armou o tapa no ar – Se quer as coisas, faça por merecer!

Por que tenho que fazer por merecer para matar a fome de chocolate? – apenas pensou, dizendo em seguida:

- O que é fazer por merecer?

A mãe ia falar de novo da lição de casa, mas, ajudada pela ira, mudou de estratégia:

- O que é fazer por merecer? É não faltar à aula para vadiar na rua, é não soltar um palavrão cabeludo daqueles na frente de toda a família – ou já esqueceu? -, é não fingir doença pra faltar na catequese… É não roubar, como um pivete, a bolsa da própria vó! – gritou, ensandecida.

Quando a mãe bateu a porta, apressada para tirar o leite do fogão, o menino jogou a bíblia pro alto e saiu em disparada pro meio da rua.

- Francisco, volta aqui! – gritou a mãe.

Quando virou a esquina, deu de cara com o Tião, jogando dominó no tabuleiro do ponto de táxi.

- Ohh, Chiquinho… Chegou na hora boa!

O negro tacou a última peça na mesa, levantou orgulhoso da vitória e rapou o dinheiro de dentro do boné.

- Tome aqui, moleque, umas pratas por trazer a sorte pro velho Tião. Mas, tem que gastar na minha venda…

O menino abriu um sorriso do tamanho do mundo e abraçou forte o negro, como em devoção, enquanto olhava agradecido pro céu…

Publicado em: Contos