Pernilongos na madrugada

Publicado em 13 dezembro, 2011

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Então nós perfuramos o fundo do mar e vemos jorrar o sangue negro

 

Serramos árvores centenárias numa manhã de trabalho

 

Instalamos chaminés de fumaça bem no meio da selva

 

E sulcamos nossas siglas no corpo frêmito da rês

 

Devassamos o céu…

 

Nele arremessamos aberrações metálicas de olhos poderosos

 

Invadimos a intimidade das estrelas, rompemos seu hímen antiquíssimo…

 

E capturamos antas, javalis, jacarés, macacos e, sob o microscópio, profanamos seus corpos, manipulamos suas vísceras, jogamos o resto no lixo e, por um ou dois dias, sanamos nossa sede de saber

 

Nós, que implantamos chips nos pombos, que clonamos ovelhas num rancho-modelo (e os vemos morrer precocemente, vítimas de inescrutável confusão)

 

Que, como um Dilúvio, aniquilamos espécies e, depois, salvamos alguns exemplares com eficientes colares de identificação…

 

Nós, que praticamos patéticos genocídios de pernilongos na madrugada…

 

Que brincamos de massinha com o mundo e de anatomistas com os bichos

 

Que vislumbramos bilhões de galáxias como a nossa…

 

E, ainda assim, enterramos uma bandeira na superfície da Lua…

 

E, nós, cosmonautas invioláveis em órbita, que depois de tudo o que vimos, gritamos do espaço que Deus não existe, e assim continuamos até que uma mão invisível e invencível, enfim, nos destroce…

 

…como pernilongos na madrugada.

 

Nós, que somos Deus…Ou não somos?

Publicado em: Brainstorming