Então nós perfuramos o fundo do mar e vemos jorrar o sangue negro
Serramos árvores centenárias numa manhã de trabalho
Instalamos chaminés de fumaça bem no meio da selva
E sulcamos nossas siglas no corpo frêmito da rês
Devassamos o céu…
Nele arremessamos aberrações metálicas de olhos poderosos
Invadimos a intimidade das estrelas, rompemos seu hímen antiquíssimo…
E capturamos antas, javalis, jacarés, macacos e, sob o microscópio, profanamos seus corpos, manipulamos suas vísceras, jogamos o resto no lixo e, por um ou dois dias, sanamos nossa sede de saber
Nós, que implantamos chips nos pombos, que clonamos ovelhas num rancho-modelo (e os vemos morrer precocemente, vítimas de inescrutável confusão)
Que, como um Dilúvio, aniquilamos espécies e, depois, salvamos alguns exemplares com eficientes colares de identificação…
Nós, que praticamos patéticos genocídios de pernilongos na madrugada…
Que brincamos de massinha com o mundo e de anatomistas com os bichos
Que vislumbramos bilhões de galáxias como a nossa…
E, ainda assim, enterramos uma bandeira na superfície da Lua…
E, nós, cosmonautas invioláveis em órbita, que depois de tudo o que vimos, gritamos do espaço que Deus não existe, e assim continuamos até que uma mão invisível e invencível, enfim, nos destroce…
…como pernilongos na madrugada.
Nós, que somos Deus…Ou não somos?
Deise
12 janeiro, 2012
Fazia tempo que eu queria vir aqui comentar esse post, que eu li logo que foi escrito. Eu demorei a comentar por que queria amadurecer a leitura, o que ela me dizia, tentar não escrever algo tolo, mas que estivesse à altura do escrito.
O tempo passou e eu continuo resumindo tudo numa só palavra: arrebatador!
Por que vai ao extremo da razão e a ultrapassa, condensa poesia e reflexão filosófica, é catártico, revelador. É lindo!
Parabéns, Gui!
Continue escrevendo.